Conheça 3 projetos inspiradores que transformam vidas por meio da arte

Conheça 3 projetos inspiradores que transformam vidas por meio da arte
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Uma das vertentes do Festival Nova E-ducação foi a inspiração e, por isso, convidamos o ator Bruno Gagliasso para entrevistar três projetos sociais que transformam vidas pelo Brasil. 

Continue a leitura e conheça esses projetos inspiradores.

O que você vai encontrar nesse artigo:

Orquestra Maré do Amanhã

A conversa aconteceu com o idealizador e criador da Orquestra Maré do Amanhã, o jornalista Carlos Eduardo Prazeres. 

O projeto ensina música a crianças e adolescentes do complexo da Maré, na capital do Rio de Janeiro, e hoje atende 4 mil crianças com curso profissionalizante.

Como tudo começou?

A história se inicia com uma outra iniciativa: a Orquestra Pró Música. O pai de Carlos era maestro e fundou esse projeto para levar inspiração às crianças da favela por meio da música. Em 1999, ele foi sequestrado e assassinado. Até hoje, a polícia não deu uma explicação à família sobre o que de fato aconteceu.

Carlos continuou trabalhando na orquestra, mas os maestros que vieram posteriormente tinham o pensamento diferente de seu pai e queriam elitizar o projeto. Com o objetivo de continuar levando cultura de forma acessível para a comunidade, criou a Orquestra Maré do Amanhã.

“Sou jornalista e não deixei minha profissão para dar continuidade a um projeto elitizado. E agora? Eu vou deixar o sonho morrer? Não, eu não vou! Eu aprendi muito com meu pai e fiz o sonho renascer. Como sou teimoso, vou fazer esse sonho renascer onde ele foi interrompido. Se na Maré acabaram com ele, na Maré eu faço ele renascer”, disse Carlos, com muito entusiasmo.

Em 2010, ele se juntou com alguns músicos e investiu na capacitação deles para que, posteriormente, se tornassem transformadores dentro da comunidade. Atualmente, o projeto conta com 30 profissionais ensinando música, distribuídos em todas as pré-escolas do Complexo da Maré. 

Ao longo do caminho, esses líderes identificam os talentos e os encaminham às orquestras infantis do projeto. Das orquestras infantis, são transferidos à Orquestra Maré do Amanhã, que é o braço profissionalizante. 

Recepção da comunidade

O jornalista contou que, no início, a recepção da comunidade foi complicada. A iniciativa chegou à Maré ensinando Beethoven e música clássica em vez de funk, por exemplo, que é um dos estilos musicais mais ouvidos pelos moradores.

Com a experiência, entenderam que conseguiriam entrar na realidade daquelas crianças e jovens e trazê-los para o universo da música clássica. Atualmente, o repertório da Orquestra conta com um medley só de músicas da cantora Anitta.

“Se você chega em uma escola de crianças de 6 anos e começa a sua apresentação tocando músicas da cantora Anitta, ao final, você pode tocar qualquer música clássica que eles vão achar lindo, porque o coração já abriu”, comenta Carlos.

Atualmente, os alunos vão a concertos sozinhos, compram discos e acompanham o mundo da música clássica, tornando perceptível como o projeto transforma a vida deles.

Orquestra Maré do Amanhã como referência de educação no Brasil

O fundador da Orquestra afirma que a música é um grande aliado da educação. Além de ajudar no poder de concentração, de foco e de escuta do outro, ela provoca reflexos desses aprendizados dentro da sala de aula. 

“Música é matemática pura, e os profissionais do ramo têm uma facilidade enorme nesse campo. Essa arte vai entrando no intelecto deles sem perceberem. Alguns alunos, que eram fechados, hoje conversam normalmente e se apresentam nos concertos. A música tem um poder transformador muito grande”, complementa o jornalista.

Como o projeto está levando música aos alunos em meio à pandemia?

Através de plataformas como o Zoom, o projeto está dando continuidade às suas atividades. 

Os professores fazem videochamadas com os alunos para ensinar os conteúdos e, ao final de cada aula, solicitam um retorno prático por áudio; ou seja, os jovens gravam o exercício e encaminham para que o profissional possa avaliar o seu desempenho na atividade.

Clique aqui para conhecer melhor o projeto.

 

Cortejo Afro

Bruno Gagliasso também conversou com Alberto Pitta, um dos criadores do Cortejo Afro. Curioso(a)? Confira abaixo como foi o bate-papo.

Qual é a história do projeto?

Em 1998 surge a ideia de recuperar as cores perdidas do carnaval da Bahia. Sendo assim, criaram um bloco afro em que todas as pessoas tivessem a oportunidade de participar. 

Além do bloco em si, o Cortejo Afro conta com outras duas iniciativas: o Instituto Olhar e o Instituto de Arte e Educação. Lá, as pessoas têm a oportunidade de aprender estamparia, moda e design. São atividades que o mercado profissional acaba abraçando e cujos conhecimentos os participantes podem aplicar em figurinos e intervenções artísticas no período do carnaval. Querendo ou não, esse momento acaba sendo uma “vitrine” para todas as atividades que são desenvolvidas ao longo do ano pelo projeto.

“Quando um bloco afro vai para avenida, ganha a visibilidade de muitas pessoas e o trabalho precisa ser bem visto para que isso reverbere durante o ano em seus trabalhos de arte e educação”, comenta Pitta.

A iniciativa prima pela estética impecável das intervenções artísticas e figurinos. Quando o bloco vai à rua, é a oportunidade de mostrar a cultura e arte do povo afro. Apesar de ser um momento festivo, eles acreditam no carnaval como um espaço educativo. E Pitta ainda acrescenta: “A arte é educação.”

Bruno Gagliasso comenta sobre a sensação indescritível de visitar pessoalmente com sua filha o projeto. “Foi uma das maiores emoções da minha vida. Nunca vou esquecer o olhar da minha filha se vendo em vocês”, disse ele, sobre a iniciativa que fomenta a diversidade cultural.

O que mudou do início do projeto para os dias atuais?

Em um primeiro momento, foi muito difícil, mas, com o passar do tempo, com mais experiência e profissionalismo, o projeto foi se consolidando – não somente no carnaval, mas nas ações durante o ano todo. A arte e a educação estão presentes nesses lugares em que o Cortejo tem a oportunidade de comunicar à sociedade que eles não atuam somente no carnaval. O carnaval é o pano de fundo para falar de educação e inclusão social. 

“Não é só o carnaval pelo carnaval; o que nos interessa são os resultados. E os resultados vêm quando você faz um trabalho sério com os jovens da comunidade”, reitera o idealizador do projeto.

A iniciativa, atualmente, segue em um terreiro de candomblé no bairro histórico de Pirajá, em Salvador/Bahia. 

Como participar?

No carnaval, as pessoas podem se inscrever para desfilar. O Cortejo produz cerca de 2 mil fantasias, das quais 70% são doadas para a comunidade do bairro, para que o projeto seja de fato inclusivo, e todos possam participar.

Normalmente, os ensaios começam em novembro e, infelizmente, eles não acontecerão neste ano por conta da pandemia do novo coronavírus.

Maior desafio atual

O apoio financeiro é um dos maiores desafios. O projeto tenta potencializar o trabalho no carnaval para equilibrar as finanças de todo o ano. 

Pitta comenta que é possível captar recursos para colocar o bloco na rua e garantir o trabalho de arte e educação com as crianças. Além disso, durante todo o ano, os projetos são apresentados para possíveis apoiadores.

“Estamos na luta e na resistência, pois temos um trabalho sério com crianças e adolescentes”, desabafa Pitta.

O bate-papo é finalizado com Alberto Pitta citando um ditado dos povos africanos de Gana: “É preciso um bairro inteiro para educar uma criança”. E é nisso que esse projeto transformador acredita.

Clique aqui para conhecer com maior profundidade o Cortejo Afro.

 

Moinho Cultural

Tivemos a incrível presença de Márcia Rolon, idealizadora do projeto Moinho Cultural no Festival Nova E-ducação. Confira os principais pontos desse bate-papo abaixo. 

Como o projeto surgiu?

O Moinho Cultural é um momento de fazer artístico. Ele se localiza na fronteira entre o Brasil e a Bolívia, local em que o tráfico de drogas e armas é uma realidade. O projeto quer proporcionar um território livre por meio da arte, cultura, amor e respeito. 

Márcia, idealizadora do projeto, teve formação em dança, mais especificamente em balé. A partir dessa paixão, ela idealizou o projeto com quatro linguagens principais: música, arte, tecnologia e literatura.

As crianças ingressam no projeto entre os 6 e 8 anos, participando de atividades artísticas durante os dois primeiros anos. O projeto se preocupa, nesse primeiro momento, em apresentar as possibilidades e não segmentar de imediato em práticas específicas. Os participantes têm a oportunidade de experimentar diversas atividades.

Márcia também salienta que, a partir das diferenças, conseguem criar o novo. A iniciativa conta com a participação de brasileiros, cubanos, argentinos, venezuelanos e bolivianos, por exemplo. 

Além disso, ela ressalta que, na iniciativa, o universal tem um peso maior que o local no primeiro momento. Com o passar do tempo, esse aprendizado universal dá tanta potência para as crianças e adolescentes que faz com que o contemporâneo e o local ganhem mais expressão e visibilidade. Música e balé clássico são o início dessa jornada. 

Os idealizadores do projeto acreditam que a iniciativa educa os jovens como seres integrais, indo além do ambiente escolar. “Os jovens se transformam e querem transformar a sociedade do jeito que eles podem. A arte da música e da dança são capazes de fazer isso”, comenta Márcia.

Dentro da orquestra, por exemplo, o jovem consegue perceber que tem a mesma importância que os demais artistas que estão ao seu lado no momento do concerto. O todo não existe sem ele.

Momento marcante

O Moinho Cultural produziu vários espetáculos durante esses anos. Um deles se chama Moinho Concert. Esse evento conseguiu reunir em uma praça mais de 5 mil espectadores. 

Crianças e adolescentes tocavam para outras crianças e adolescentes dançarem. Além disso, outras crianças e adolescentes produziam aquele episódio de sucesso.

Nesses 15 anos, criaram a Companhia de Dança do Pantanal e a Orquestra de Câmara do Pantanal. 

Com a Companhia de Dança, o projeto chegou à Europa e ganhou um concurso Internacional em Porto/Portugal como melhor grupo.

Já a Orquestra teve a oportunidade de enviar alguns integrantes para o Teatro Municipal do Rio de Janeiro para tocarem com a Orquestra Nacional Brasileira, Orquestra Infanto Brasileira e Orquestra Ouro preto. 

“Nesses momentos a gente percebe que estamos num caminho de luz e produção”, diz Márcia, emocionada.

Trabalhos na pandemia

Diante de um momento de tantas dificuldades, a iniciativa, com a ajuda de parceiros, se empenhou em dar chips de celular para as crianças, conectando-as à internet.

Além disso, o projeto conta com uma plataforma de aulas online. Lá, eles produzem materiais em conjunto com a Orquestra Nacional Brasileira e a Orquestra Ouro preto. 

O Moinho Concert, evento da iniciativa, já está sendo produzido e vai acontecer de forma online no canal do YouTube.

Esse novo contexto está possibilitando um intercâmbio ainda maior, ampliando a visão de mundo dos participantes. Atualmente, as aulas contam com professores do Paraguai, da Europa e, também, do México. 

Além disso, o dinheiro que era destinado ao lanche das crianças está sendo revertido em cestas básicas para as famílias.

“O sonho é continuar salvando vidas, alçando voos para outras fronteiras e trabalhando para ganhar novos espaços. Queremos também que a nossa metodologia seja reconhecida para, assim, levarmos para mais longe a nossa cultura de paz por meio da arte em um mundo onde há muitos riscos”, salienta Márcia.

Márcia finaliza com uma frase de esperança: “Vamos sonhar grande, porque dá o mesmo trabalho de sonhar pequeno”.

Clique aqui para conferir de perto as iniciativas do projeto.

Quer saber como estimular projetos inovadores na sua comunidade escolar? Clique aqui e entenda através do nosso Guia.

Conheça 3 projetos inspiradores que transformam vidas por meio da arte