A importância do olhar atento para a saúde mental e o acolhimento

saúde mental e o acolhimento
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Ao longo deste ano, devido à pandemia, vivemos mudanças intensas e inesperadas, que transformaram completamente o dia a dia de todos nós. Com o isolamento social causado por essa situação e as adaptações para levar o cotidiano para dentro de casa, é preciso destacar a saúde mental e o acolhimento como fatores essenciais.

Durante o Festival Nova E-ducação, Daniele Passagli, diretora geral da rede Coleguium, conversou com Isabella Sá, diretora pedagógica de educação infantil e ensino fundamental na Escola Eleva, e Janaína Bastos, coordenadora pedagógica e vencedora do prêmio Victor Civita de gestão escolar na América Latina em 2013. 

Dessa conversa, separamos os principais pontos sobre o tema. Boa leitura!

Do aluno ao professor, um olhar para o equilíbrio emocional

Segundo um estudo realizado pela Universidade de Warwick com mais de 700 participantes, a felicidade aumenta a produtividade – de acordo com essa pesquisa, em 12% – e quanto menor o nível de felicidade, menor a produtividade.

Além disso, de acordo com a Daniele Passagli durante o Festival, o ser humano aprende melhor quando está se sentindo bem. Isso acontece porque o organismo libera hormônios diferentes diante da sensação de bem-estar. Dessa forma, relacionando a felicidade e o bem-estar a questões como produtividade e aprendizado, percebe-se a importância de considerar a saúde mental e o acolhimento como peças fundamentais.

Ainda segundo Daniele “nossos alunos precisam estar com a saúde mental em equilíbrio para que ocorra um bom processo de aprendizagem”, e isso significa que a atenção a esse ponto precisa ser grande durante o processo de retomada, pois passamos de uma rotina de meses de isolamento social para um cotidiano no espaço físico da escola, com presença de outras pessoas.

“É importante destacar aqui que a questão da saúde mental é anterior a pandemia, mas pode se agravar depois desta se nós, educadores, não nos atentarmos à questão. Entretanto, o cuidado com a saúde mental deve existir independentemente do momento”, disse Daniele.

Em seguida, Daniele coloca que escolas e professores precisam pensar em práticas pedagógicas que desenvolvam habilidades socioemocionais, uma vez que, segundo a diretora, “crianças e adolescentes que não conhecem seus sentimentos também terão dificuldade de reconhecer o sentimento dos outros. Auxiliar o desenvolvimento emocional dos alunos vai fazer a diferença no convívio escolar e no processo de aprendizado, como também dentro da sociedade”.

Na Plataforma Eleva, por exemplo, o Laboratório Inteligência de Vida é um material socioemocional que promove esse processo de autoconhecimento e conhecimento do outro, para desenvolver habilidades socioemocionais. 

Além disso, Daniele ressalta a importância de a escola promover um espaço de diálogo para que os alunos possam falar sobre seus sentimentos. Nesse momento, é fundamental o olhar atento do professor a mudanças de comportamento, viabilizando o acolhimento e auxílio dos alunos. Porém, para que o professor possa desempenhar esse papel, é necessário que ele esteja cuidando da própria saúde mental também.

A importância dos espaços de escuta nas escolas

Em seguida, Isabella Sá comenta o papel do professor dentro da escola no cuidar e educar; para ela, toda a comunidade escolar tem alguma relação com o professor e, por isso, ele é, sem dúvida alguma, o ator principal desse processo de equilíbrio mental.

Ela complementa dizendo que “o professor é aquele que está, seja em sala de aula ou nas telas, em contato direto e cotidiano com seus alunos, e com mantenedores, diretores e coordenadores. Não há escola sem professor.” 

Por isso, Isabella chama a atenção para a importância de se escutar esses professores que estão diariamente em contato com toda a comunidade escolar. Segundo ela, isso está ligado ao conceito de “homologia de processos”, isto é de que “você só consegue oferecer uma experiência que você tenha vivido.”

Assim, se a intenção é oferecer um espaço para o aluno se sentir acolhido, acompanhado e ouvido, é preciso disponibilizar esse mesmo espaço para o professor. Afinal, será que as reuniões com a equipe pedagógica são espaços de escuta em si ou apenas determinam caminhos e diretrizes?

É necessário abrir espaços de escuta que sejam oficiais, desde aqueles espaços para trocas profissionais sobre projetos com a coordenação, até espaços programados de escuta individual para entender cada professor, possibilitando-lhe falar sobre dificuldades, caminhos, sentimentos, para que ele também se entenda como um sujeito que precisa acolher. “Só acolhido ele poderá, então, acolher”, completou Isabella.

“Para além de apenas escutar individualmente e planejar com ele as trocas didáticas, é necessário ter um espaço de representatividade, também planejado, para que não aconteça só informalmente nos corredores, mas também em reuniões de representantes, em que os professores possam elaborar ideias e dividir dúvidas durante a construção de todos os novos processos. Eles merecem ser genuinamente escutados.”, complementou Isabella.

3 passos para criar um espaço de escuta na instituição de ensino

Em outro momento da conversa, Janaína Bastos, vencedora do prêmio Victor Civita de gestão escolar em 2013 e coordenadora pedagógica ressaltou a importância de criar o espaço de escuta para promover a saúde mental e o acolhimento.

Para criar esse espaço, Janaína explicou 3 elementos que são fundamentais e precisam estar definidos:

Recurso tecnológico

Quando falamos em tecnologia, é normal vir à mente imagens futurísticas de aparelhos ou máquinas com múltiplas funcionalidades e recursos. Contudo, quando nos referimos a um recurso tecnológico para criar um espaço de escuta, estamos falando de uma ferramenta que ajude a organizar esse ambiente e tenha a função de manter os registros necessários para a continuidade desse processo.

Pode ser uma planilha do excel, um livro de ata, um caderno de anotações, ou mesmo um documento no computador, desde que possibilite organizar todas as particularidades de um sujeito, ou seja, organizar a primeira escuta de cada um e salvar todas as informações que são necessárias sobre aquela pessoa.

Processos bem definidos

Os processos desses espaços de escuta precisam estar bem definidos para que ele seja efetivo dentro da escola. Segundo Janaína “é preciso definir o que são esses espaços e como eles funcionam, porque já existem muitas formas de se escutar veladas ou invisibilizadas, e a proposta não é essa”.

Ela também complementa que o processo pode ser simples, com anotações sobre como ocorreu, mas que é necessário ter uma organização do que será feito a partir disso, quais serão os próximos passos, ou seja, um plano de ação a partir do que foi dito nesse processo.

Cultura da escola

É importante que cada escola tenha sua cultura e a conheça muito bem, entendendo qual é o seu posicionamento sobre temas educacionais como evasão, reprovação e oportunidades para a comunidade escolar. Segundo Janaína, “isso molda o processo de escuta. Se a mentalidade da escola, por exemplo, não impulsionar o sujeito para que ele seja feliz, não adianta.”

Além disso, para compreender a própria cultura e construir esse processo de escuta dentro da instituição de ensino, também é preciso conhecer a comunidade ao redor da escola, uma vez que essa iniciativa vai gerar ações de acolhimento, além causar impacto em pequenas ações, como a conversa com um aluno ou alguém da família.

Por fim, Janaína coloca que todo o processo de escuta “é mais do que se importar, é mostrar como se importa e permitir que o outro entenda os mecanismos que demonstram que me importo com ele.”

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